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Chernoviz e o jacaré

Publicado por Antonio Carlos Santini em Cotidiano
data: 28/01/2014

Outro dia, estive no escritório de um amigo, gerente de uma empresa, e dei com os olhos em um jacaré. Como? O leitor não acredita? Ora, é natural… Esqueci-me de um detalhe insignificante: era um pequeno jacaré de metal, fundido em duas partes, presas a um eixo à altura da mandíbula, e com a elegante cauda servindo de alavanca…

Olhei para o meu amigo, como quem acaba de desvendar o seu passado inconfessável, e perguntei à queima-roupa: “Você já foi farmacêutico?” Ele sorriu, o amigo, não o jacaré!, e confessou. Antes de entrar no mundo das finanças, tinha sido um farmacêutico, boticário de cidadezinha à beira-rio. E desfiou meia dúzia de historietas, de causos pitorescos, desde o parto feito na ausência do médico até as centenas de contas que ficaram “penduradas” anos e anos, por conta da caridade e do coração mole diante da dor humana…

Naquele momento, o amigo não sabia, mas o jacaré de metal estendia uma ponte para o meu passado, para a farmácia do Seu Tiu, pai do Atinho, companheiro de internato nos saudosos tempos de ginásio. Na Farmácia São Sebastião, de Sebastião Acácio Teixeira – mais conhecido pelo hipocorístico familiar acima citado -, bem fixo e aparafusado sobre a grade de madeira que ladeava o balcão, meus olhos de criança namoravam outro jacaré, nas mesmas dimensões, talvez um primo em segundo grau deste tranquilo sáurio, quem sabe um melanosuchus niger, o jacaré-açu reduzido a morder rolhas de cortiça que recalcitravam em entrar no gargalo do vidrinho de tintura de iodo…

Foi na Farmácia São Sebastião que vi pela primeira vez aquele superpescador que arrastava nos ombros o peixe da Emulsão Scott. Ah! Quem pode esquecer aquela maldita Emulsão Scott empurrada goela abaixo?! Foi ali mesmo que me deram uma série de injeções antirrábicas, quando mordeu-me o tornozelo o cachorro manso e vira-latas da Tia Maninha. De lá saíam as cápsulas e os elixires contra febres, dores e inflamações.

Hoje em dia, o farmacêutico é um comerciante qualquer, que fecha aos domingos, dorme cedo e ninguém tira da cama pela madrugada para ouvir a ronqueira do Coronel Marcolino ou do filho da viúva da lavadeira… Última extensão de uma teia que tem seu ovo nos laboratórios das multinacionais ávidas de lucro, o farmacêutico de hoje é levado a ser um burocrata da doença.

Antigamente não era assim. Raros e distantes os médicos, e sempre fora do alcance das finanças do pobre, era o farmacêutico quem acudia a qualquer tempo, e em qualquer biboca ou vertente da serra, quando estrebuchava um retireiro ofendido de cobra, ou gemia a roceira em sua hora, ou sufocava o crioulinho nas vascas do crupe.

O senhor boticário herdou de Merlin suas fumaças de químico. À luz da lamparina, Chernoviz em punho, moía no almofariz caseiro seu arsenal de sais, ervas e raízes, para espantar a febre malsã ou a cólica que podia dar nó nas tripas…

E para que ninguém duvidasse das sabenças medicinais do antigo boticário, meu amigo gerente trouxe de casa e me emprestou, devolverei um dia?, o seu próprio Formulário Chernoviz, na 18ª edição. O Chernoviz era a bíblia de todo farmacêutico. Nele posso ler sobre o aerômetro de Baumé, sobre as águas destiladas, os compostos químicos, a terapêutica em geral.

À página 107, leio a receita dos Grânulos de strychnina:

- Strichnina                           0,5 centig.

- Assucar de leite pulv.       2 gram.

- Gomma arabica pulv.       0,50 centig.

- Xarope de mel                   q.s.

Segundo o Chernoviz, devem ser administrados em casos de amaurose, paralysia, impotência, chorea, asthma e nevralgias.

E nas últimas páginas, ainda aparecem os bisavôs dos comerciais de produtos farmacêuticos. Para a prisão de ventre, CASCARA ALEXANDRE; para varizes, HAMAMELINA ROYA; para gota, cálculos e reumatismo, SAES DE LITHINA EFFERVESCENTES. E lá estão, entre as últimas descobertas da ciência médica, a Medicação Cacodylica Arsycodile, a Papaína do Dr. Niobey, o xarope E. Fournier, o Aethone C7H16O3. E – maravilha das maravilhas! – o PHÉNOL-BOBOEUF, único desinfetante, destruidor de TODOS os micróbios, precioso preservativo de todas as doenças contagiosas, inclusive febre amarela, cólera, tifo, febre tifoide, escarlatina e tuberculose, prêmio MONTHYON, conferido pela Academia de Ciências de Paris…

E, se procurarem com atenção, em alguma parte dessas 2.342 páginas, amarelas e envelhecidas, ali deve estar a pasta, o unguento ou o sublimado miraculoso, capaz de curar todos os males deste mórbido início de século, sem excluir o câncer, o stress e o desamor…

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Antonio Carlos Santini - Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia/ Licenciado en letras - Portugués y Francés. Profesor de artes e ciencias humanas. Es evangelizador católico, compositor de músicas religiosas, autor de varios libros de catequesis y poesía. Residente em Belo Horizonte MG
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