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EUA: “Latinos go home!“ – parte 3 – Os brasileiros

Publicado por Afonso Machado em Demografia, EUA e Canadá, Internacionais
data: 19/05/2009

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A pesquisadora Bernadete Beserra, professora de sociologia e antropologia da Universidade Federal do Ceará tem sido convidada para fazer palestras em importantes universidades dos EUA sobre o tema da imigração brasileira. Em 2003 ela lançou o livro “Brazilian Immigrants in the United States – Cultural Imperialism and Social Class“, editado pela Biblioteca do Congresso dos EUA. O livro discute a situação de brasileiros imigrantes nos EUA, os fluxos migratórios e suas motivações, adaptação dos brasileiros à realidade americana, identidade cultural e novas relações sociais.

Segundo reportagem da revista “Universidade Pública”, da UFC, em 1995 ela embarcou para os Estados Unidos com o então marido e três filhos a fim de fazer seu doutorado na Universidade da Califórnia em Riverside, a 80 km a leste de Los Angeles. Seu objetivo era estudar a sustentabilidade na agricultura americana, uma “expertise” daquela instituição de ensino.

Mas ela foi mudando seu projeto de pesquisa pelo choque cultural que sofreu. A dificuldade da língua, dos filhos em se adaptar, mas principalmente sua auto-percepção diante dos americanos. Primeiramente não como brasileira, mas como latina. E que significado isso tem? “Ser latino nos Estados Unidos é a mesma coisa que ser nordestino no Rio de Janeiro e em São Paulo”, compara. A experiência de discriminação e deslocamento, a aproximou de outros brasileiros. Ela então voltou o foco de sua pesquisa para a situação dos imigrantes brasileiros nos EUA, sob um olhar antropológico.

Segundo Bernadete, o grupo de imigrantes brasileiros mantém traços de união muito estreitos entre si. “Os brasileiros que estão lá nunca acham que vão ficar para sempre. Vão para estudar, trabalhar temporariamente, ganhar algum dinheiro, são comunidades provisórias”. Mas o que atrai esses brasileiros nos EUA? Segundo Bernadete, o sonho americano, a vontade de melhorar de vida facilmente, ainda embala muita gente. “Só que esse sonho dura pouco. O que os prende lá é o consumismo. Caem numa armadilha de consumo que sua posição no Brasil não permite”.

Em Los Angeles, ela conviveu com dois grupos de brasileiros, de classes sociais distintas. O primeiro grupo, a que chegou por intermédio de uma professora brasileira de economia, era de brasileiros de elite que se reuniam mensalmente para almoçar, ouvir música, conversar. O segundo, apontado por uma brasileira punk, era de brasileiros de classe trabalhadora, freqüentadores da Igreja Adventista do 7o. Dia em um subúrbio chamado Chino, entre Los Angeles e Riverside.

Diferentemente de outros imigrantes latino-americanos, os brasileiros conseguem manipular as identidades culturais de acordo com a oportunidade. “A gente se identifica culturalmente com os latinos do Caribe, com os negros, mas o destino mais provável de brasileiros brancos é aproximar-se de americanos brancos e protestantes como uma forma de ascensão. Já os brasileiros mais escuros podem decidir se se aproximam dos negros americanos ou dos latinos”.

A imagem dos brasileiros, nos Estados Unidos, segundo Bernadete, está ligada ao exotismo. O Brasil exerce fascínio, principalmente em relação à sensualidade das mulheres difundida pelas escolas de samba, à forte musicalidade, ao charme de Carmem Miranda. “Todo americano quer visitar o Brasil. Somos a Disneylândia deles! Seja pelo exotismo da Amazônia ou pelo carnaval”, afirma a pesquisadora.

Segundo a pesquisadora os brasileiros insistem na brasilidade, rejeitando a identidade latina para evitar o olhar discriminatório americano e também suas conotações políticas. “Há certo oportunismo nisso”, garante Bernadete. Porque, antes de tudo, assumir-se como latino é reconhecer o lugar de excluído e lutar pela conquista de direitos como as cotas em universidades, por exemplo.
O conceito de brasilidade, no entanto, é feito de exclusões. “Quem nos define como brasileiros nos EUA é a imagem construída sobre o Rio de Janeiro. Eu mesma aprendi a sambar e a fazer feijoada lá”. Bernadete percebeu que as relações de discriminação entre brasileiros se acentua nos EUA. “Eles fazem muitos joguinhos, discriminam você pelo sotaque paraibano ou cearense”.

Estima-se que o número de brasileiros nos EUA ultrapassou 800 mil no início da década de 2000. Na Califórnia, onde estão os grupos pesquisados, a maior parte é de cariocas, seguidos de paulistas e gaúchos. Nova York concentra mais mineiros e capixabas ligados mais à construção civil e aos serviços, assim como Miami abriga mais nordestinos, que geralmente aceitam todo tipo de trabalho.
Bernadete explica que os fluxos de imigração sempre ocorrem em relações de redes que se estabelecem. Ela explica que as primeiras redes migratórias foram produzidas pelos próprios americanos, primeiramente através da expansão do adventismo do sétimo dia, a partir de 1880. As redes de casamento entre brasileiros e americanos se acentuaram com o deslocamento de soldados americanos que vinham prestar serviço no Brasil, durante as duas grandes guerras. Posteriormente através do fluxo de cientistas e pesquisadores no País e no desejo de artistas brasileiros em alcançar o sucesso em terras americanas, estimulados pelo fenômeno Carmem Miranda.

A intensificação da imigração Brasil-EUA, ocorre a partir da década de 80 e se intensifica nos governos Collor e FHC. “Essa não é característica especial do Brasil. Os novos movimentos migratórios foram potencializados pela globalização e pelo neoliberalismo. O que vemos são os colonizados indo para as metrópoles que os colonizaram ou neocolonizaram”, finaliza.

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Afonso Machado - Jornalista, residente em Belo Horizonte MG
3 Comentários
  1. Vicente/Betim

    O artigo mostra que a discriminação entre brasileiros é a pior de todas, pois é entre irmãos e lá fora em vez de acabar piora

  2. Francisco BH

    Gostaria que o autor falasse não apenas do retorno dos brasileiros mas também da chegada dos chineses. Uma das condições impostas pelo governo chinês para investir em fabricas no Brasil é que a mão de obra venha junto.Na China estão sobrando 100 milhões de homens. E parece que já escolheram o Brasil. Sugiro que o autor pesquise esse assunto.

  3. Leda M.Julia de Carvalho - Belo Horizonte MG

    Primeiramente parabenizo o Editor deste site pela brilhante iniciativa em criá-lo com o objetivo de podermos democraticamente discutir e trocar idéias com informaçõess verdadeiras, justiça humanística, sucesso e tecnologia para todos.
    A Bernadete Bezerra é realista em seus comentarios sobre os imigrantes brasileiros. Eu constatei de perto através do Centro Cultural Brasileiro em Hartford (Connecticut) o quanto é dificil os tramites legais necessarios para se instalar nos EUA. Os americanos ainda hoje, apesar da crise necessitam do trabalho dos latinos e infelizmente acrescento que as dificuldades de se viver lá são bem menores do que as de se viver aqui na zona rural sem nenhuma perspectiva de sobrevivência. Lá eles aprendem o Inglês básico gratuito e sobrevivem com mais dignidade do que no Brasil.

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